terça-feira, 21 de dezembro de 2010

UM CONTO DE NATAL!

Noite fria, ela sentia seus joelhos tremerem enquanto sentava num cantinho escondido da rodoviária central. Se os vigias a flagrassem ali iriam expulsá-la imediatamente sem se importarem se ela teria um lugar seguro pra ir. Mesmo assim ela não os culpava, estavam fazendo o trabalho deles.

Mas naquela noite, sabe-se lá o porque, um faxineiro esquecera um carrinho de limpeza num lugar bastante cômodo, que a protegia dos olhares dos guardas.Pensou: "bendito faxineiro!". Enquanto seus olhos se perdiam num misto de exaustão e adrenalina, apreciava as decorações natalinas por uma pequena brecha no carrinho de limpeza.

Por que tantas luzes? Só tinha 12 anos e a cerca de 10 deixara de acreditar em papai Noel. Afinal, já vagou por tantas ruas e viu tantos e tantos papais Noéis, cada um mais estranho que o outro. Dentre uma de suas desagradáveis descobertas, ainda muito cedo na vida, um deles tentou a bolinar enquanto sentava em seu colo pra ouvir seu pedido de natal! A imagem daquele velho nojento vestido de vermelho e com uma barba que fedia a cachaça apenas contribuiu para a destruição precoce da lenda!

Na noite de natal as pessoas se confraternizavam onde quer que ela passasse, sorrisos, abraços (sinceros ou sarcásticos?) e os presentes. AH, os presentes... eles jamais saltariam das vitrines para seus braços. Não se você não tivesse uma conta gorda ou um cartão de créditos. Restava então que figurassem sua imaginação. Tambem não desejava mais um brinquedo do que algo que lhe preenchesse o vazio no estômago ou que lhe aquecesse o frio!

“BENDITO FAXINEIRO! Devo me lembrar de agradecer a ele amanha cedinho quando ele vier pegar seu carrinho de limpeza!” pensava ela, feliz da vida. Apesar do cheiro dos escapamentos dos ônibus que entravam e saíam ali perto, o calor dos motores não era tão ruim. Não foi a noite de natal que planejara, ou que qualquer um em juízo próprio quisesse para si. Porém sabia que estava melhor naquela noite do que nas demais, e isso era para ela um presentão!

Deus? Bom... até que ela cria, já que é a ultima opção dos menos favorecidos e desesperados é aclamar ao bom e velho Deus. Pelo menos esse a ouvia vez ou outra e a tirava de algumas encrencas! Ela tinha doze anos, estava só na vida e VIVA... se não acreditasse iria estaria duvidando da sua própria existência!
O sono chegou, dormiu por algumas horas até que um cheirinho bom a trouxe a tona de seu profundo descanso. Era uma sacola de papel grande bem do seu lado, no seu interior, um sanduíche de uma marca famosa, era o maior deles... tinha batatas fritas e um copo enorme de refresco. Até então ela só tinha visto outras pessoas comerem e sempre quizera saber que gosto tinha. Bom, a hora enfim chegara! Pra sua surpresa ainda tinha junto à sacola um cobertor e um pequeno travesseiro que parecia ter sido feito sob medida pra ocasião. “quem será?” bom, melhor pensar nisso depois...

Comeu como se estivesse sem alimento a dois meses! Depois da refeição, o sono voltou, ainda mais imponente e ela se rendeu ao repouso sagrado. Dessa vez aquecida do frio por algo mais que o calor dos barulhentos ônibus que se tornavam escassos na madrugada fria de natal!

Na manha seguinte, acordou com o barulho dos passageiros de um ônibus e notou que o carrinho não mais a protegia dos olhares das pessoas. “Puxa, eu nem pude agradecer ao faxineiro” pensou. Sem exitar, se levantou, guardou o cobertor e o travesserinho na sacola grande, jogou a embalagem do lanche numa lixeira ali próxima e notou que deixara para traz um pequeno pedaço de papel vermelho. Voltou para ver o que era, e como não sabia ler, pediu a um senhor que desembarcara de um daqueles ônibus para que lesse para ela. O senhor pegou o pedaço de papel vermelho, leu e disse: “EU EXISTO!”

Naquele instante, o que parecia ter sido sorte, deixou a sensação de que aquele faxineiro não deixara o carrinho ali por acaso. A refeição e o agasalho só vieram a reforçar sua convicção!
Um sorriso diferente dos demais anos de sua vida se fez presente em seu rostinho sujo naquela manhã enquanto agradecia. Mas a quem agradecer? DEUS? PAPAI NOEL?... seja quem for que a concedeu essa noite especial, só restava à pequena dizer: “BENDITO FAXINEIRO!!!”


“QUE NÃO ELEJAMOS DATAS PARA FAZER O BEM E RETRIBUIR AS GRAÇAS DE DEUS PARA COM O PRÓXIMO! FAÇAM O BEM QUE GOSTARIAM QUE FIZESSEM A TI SE ESTIVESSEM EM TAL SITUAÇÃO!”


“paz”


Marcelo Dinelza

5 comentários:

  1. *Tem vida própria tuas músicas, poemas, poesias e histórias! Tão viva qto cada um de nós! Simplesmente perfeito!*

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  2. Com lágrimas nos olhos digo - linda estória!

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  3. espetacular historiaa,marcelao sempre se supera!

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